sábado, 9 de maio de 2009

VAPORDYNE...

Coluna do Victão Lamborghini!...
Como Maio é o mês da Indy 500, vamos abordar algumas das idéias mais interessantes, pra não dizer estapafúrdias, que passaram por lá. Uma delas foi o sonho de Bill Lear, o criador do rádio para automóvel (porque ele desafiou o professor de eletrônica e criou uma bobina minúscula, permitindo a instalação do radio no painel Motorola, lembram?).


Billy Lear e uma das seçoes da Caldeira Mono-Tubo de Aço Inoxidavel do Vapordyne, com alta tecnologia, estes tubos foram testados até 8000 PSI. Durante os testes forçou-se a explosão da caldeira. Projetada para isso, não ocorreu nenhum acidente.

Ele gostava de desafios, e registrou mais de 130 patentes, incluindo o precursor do GPS (compasso elétrico) o piloto automático e sistemas de pouso par aviões, o cartucho de oito pistas e o Lear Jet. Dinheiro sobrava e faltava, mas ele não fugia dos desafios. Uma mente permanentemente em velocidade warp, que se tornou desocupada e rica após vender a Lear Jet, e que quase cometeu suicido (a esposa o pegou na porta de casa), um rebelde em busca de uma causa, que se incomodava com os temas contemporâneos, logo parte para salvar o mundo, e resolve que o grande problema era a poluição, que ele via como o teto negro de nuvens sobre Los ANGELES.

Ele encontrou Ken Wallis, engenheiro inglês que emigrou para a Califórnia em 1.963, depois de ter alguma participação no automobilismo, e que convenceu Andy Granatelli a construir o carro-turbina STP Special, que quase venceu as 500 Milhas em 67, quebrando um semi-eixo com quatro voltas para a chegada. Ken foi pedir um empréstimo para construir um iate de corrida, e quando se juntam dois malucos criativos o resultado só pode ser explosão, e foi o que aconteceu. Em seis meses eles tinham investido US$ 1.3 m em uma planta em Reno, no meio do deserto, com 130 engenheiros contratados. A idéia era desenvolver a tecnologia do motor a vapor, já que as novas regulamentações do USAC limitavam muito a potência das turbinas atmosféricas. E nada melhor do que vencer em Indy e provar o conceito, e vender os motores para as montadoras, pressionadas para reduzir emissão de poluentes. Parecia o plano perfeito.

O carro concebido para correr era o Vapordyne, com tração integral (para distribuir o torque) e a caldeira no lado esquerdo do piloto, por questões de massa e CG (com o sério risco do piloto tornar-se uma canja em caso de acidente). Os engenheiros que trabalhavam no projeto, alguns deles vindos da indústria aeronáutica, achavam que Wallis beirava a fraude, mas admiravam o seu esforço em avançar sempre nas questões técnicas.


Mocap do motor Vapordyne, para construção do Banco de Provas com alta tecnologia, aqui consumiu-se 10 milhões de dolares em pesquisas.

O vapor superaquecido entrava no motor, ou vaso de expansão em língua de gases, um 2,3 litros com 12 pistões e três virabrequins, baseado no conceito do motor de triangulo eqüilátero da Napier. O motor, situado atrás do ombro do piloto, enviava o torque para uma caixa de transferência com razão 40 (frente) e 60% (traseira), com diferenciais Halibrand em cada eixo (por enquanto eram apenas dois). Não havia cambio porque motores a vapor têm torque máximo com zero de rotação. O chassi era puro monocoque (lembrando estruturas aeronáuticas, considerando a origem dos engenheiros), suspensão com duplos triângulos, mola e amortecedores horizontais, freios a disco in-board ventilados. Fluido de freio, alternador, bomba de combustível (para a caldeira) todos eram acionados por vapor a 400 graus C e 1.000 psi. O circuito de água era selado, com regeneração da água, portanto o carro era limpo. Chegaram até a tentar criar um líquido superior à água, conhecido como Learium, com várias versões com freon e álcool. A piada é que o tal líquido Mágico era chamado de DeLiarium, por razões óbvias.


Vapordyne Deltic motor a vapor com alta tecnologia, seis cilindros, tres girabrequins, doze pistoes contra postos (dois em cada cilindro)...

O carro tinha brilhantes soluções técnicas para problemas que nunca deveriam ter acontecido, e problema era o que não faltava. O vapor vazava nas juntas do motor, os radiadores eram insuficientes, a válvula de distribuição de vapor entre os cilindros travava por falta de lubrificação, as tolerâncias eram insuficientes pela inexistência de centrais de usinagens CNC, e os materiais modernos como compostos de cerâmica eram desconhecidos, os pistões de aço inox e as camisas de ferro fundido, com dilatações desconhecidas. As tais tolerâncias novamente. Dos prometidos 1.000 HP, talvez pouco mais de 100 existiram, mas o torque era imenso, torcendo os eixos utilizados no dinamômetro como spaghetti cozido. E olhe que eram cardãs de caminhões!


Detalhe do grupo motopropulsor do Vapordyne, podemos ver o diferencial traseiro (Tração nas 4 rodas), os primeiros discos de freio ventilados do mundo, e o motor em corte.

No campo desportivo as coisas não iam melhores também, porque a USAC e os comissários de Indy queriam ver o carro até março para elaborarem fórmulas de equivalência, e havia o temor de alienar os outros motores de combustão interna.

Bloco do motor Vapordyne-Deltic (Motor a Vapor Delta), a direita o Eng; Ken Wallis projetista do motor, e a esquerda William Lear.












E o pior, Lear começou a desconfiar de Wallis e suas promessas, principalmente por um detalhe da operação, ou seja, a empresa era de Lear, mas o trabalho de engenharia era contratado da Wallis Engineering Co.

Um carro foi terminado para ser apresentado no salão de New York em Abril, com a promessa de correr em 1.970, um ano após o prometido.


Jackie Stewart foi contratado para pilotá-lo, mas as quatro grandes, principalmente a Ford (que tinha algumas patentes com vapor também) jogaram duro, pressionaram Lear, e este acabou desistindo, depois de dois ataques do coração. Em junho estava tudo terminado, assim como US$ 17milhões da fortuna de Lear.

Consta que a única pessoa feliz era Wallis. Rico e livre. O seu temor é que podia ter dado certo.
(reprodução/ Motorsport-maio)

4 comentários:

RPM Carioca disse...

Que puta materia, essa não conhecia ao vivo. Já tinha escutado falar algo sobre a façanha do britânico, mas ao vivo com fotos e charge ficou show. Parabéns ao Victor e ao síndico por mais uma!

regi nat rock disse...

Tenho que reler um bocado de vezes para captar em sua plenitude, todo o conceito.
Falamos supercialmente hj, depois da corrida a respeito de vapor, mas tava todo mundo com pressa de ir embora e o assunto adormeceu.
Mas vou voltar nele.

Virgo disse...

Puta matéria, Vitão! Daquelas que dá prazer de ler, apesar do excesso de dados técnicos. Mas, fica o testemuho que soluções existem, e que não são implementadas por interesses econômicos.
Lembro de uma matéria da 4Rodas faz muito tempo sobre um motor que foi testado no Brasil que queimava qualquer coisa, de gasolina a óleo de soja não refinado, e que tinha sido desenvolvido para aplicações estacionárias de geração de energia nos rincões. Os produtores poderiam ter suas máquinas movidas a óleo vegetal de sua própria lavra, literalmente.
Nunca mais se ouviu falar do tal motor aqui no Brasil...

Aun disse...

Fato é que nem sempre as boas idéias foram bem vistas pelo sistema capitalista.

Quem dera esta e outras soluções energéticas fossem incentivadas no passado e talvez hoje estariamos deixado o consumo de combustíveis naturais, andando com carros flutuantes sem pagar nada por isso.

Parece utópico, mas estamos parados no tempo grande parte por culpa das grandes corporações.

E vamos estar por um bom tempo.

Um abraço,

Rafael Aun